Lideranças repercutem o anúncio da Petrobras

07-04-2017

O pronunciamento do presidente da Petrobras, Pedro Parente, atinge em cheio a comunidade rio-grandina, desde empresariado, comércio, trabalhadores e a economia local de uma forma geral. Ouvimos algumas lideranças da cidade, que opinaram sobre o cenário de crise e sobre o anúncio do recuo de investimentos nas construções navais.

PREFEITO
O prefeito Alexandre Lindenmeyer enfatizou que vai continuar mobilizado em defesa da indústria naval. Disse que os argumentos que a Petrobras sustenta para, nas palavras dele, “dar esse cavalinho de pau na política nacional” passa principalmente pelas questões relacionadas à Lava Jato e pela crise financeira que a empresa está passando. Argumentou que abrir mão da indústria naval que agrega valor, que manufatura, é um crime contra o povo brasileiro. “Estamos chegando a um índice de participação da indústria nacional equivalente ao que se tinha de participação em 1910, o retrocesso é enorme. [...] A Abimaq fez um levantamento que aponta que, em todos os projetos executados no mundo, em Singapura, no Japão, na China, também há atraso na execução dos projetos, não é uma questão só nossa. [...] Vamos ter um impacto de venda de todo esse equipamento a preço de sucata, sem retorno para os bancos públicos que financiaram, com uma legião de gente desempregada sem perspectiva, vamos retroceder no tempo. Para fazer contraponto a isso tudo, estamos em um processo de mobilização que envolve os patrões, empregados, prefeituras, estados que abraçarem a pauta, porque nós vamos fazer frente contra a entrega do que é brasileiro para fora do país. Cerca de R$ 800 milhões que custa uma obra lá fora é mais caro que R$1,2 bilhão que custa aqui, porque R$ 1,2 bilhão volta como imposto, volta como renda, volta como dignidade do cidadão em não ficar desempregado”, defendeu.

“Se nós tínhamos 81 mil trabalhadores na indústria naval, nos chegamos em mais de 300 mil trabalhadores indiretos espalhados pelo Brasil pelas indústrias fornecedoras de bens com altíssimo valor agregado para o País. [...] Se pegarmos a história do preço de petróleo, vamos ver que tem curvas, chegou a US$27 e hoje está próximo de US$ 50. O preço do barril extraído do pré-sal está em torno de US$ 30. Sendo que hoje mais de 45% do petróleo extraído no Brasil é do pré-sal. A reserva do pré-sal é uma descoberta extraordinária feita pela Petrobras, com a tecnologia gerada pela Petrobras, então essa reserva de petróleo passa a ser de interesse mundial pelas grandes petroleiras que acabam migrando e sendo parceiras da empresa brasileira. Nós acabamos abrindo mão da nossa indústria pra construir, segundo o próprio diretor, Nelson Silva, da Petrobras, 19 novos navios plataformas ate 2021 pelo menor custo. Isso sinaliza que o menor custo é construir na China ou Singapura, porque nós não temos simetria de impostos de legislações entre a legislação brasileira com a legislação de lá. Fora disso o Repetro - que é uma política de financiamento de desoneração que existe hoje em relação aos estaleiros - não existe em relação à indústria fornecedora de bens do Brasil, então a indústria estrangeira acaba entrando na competição de forma totalmente desproporcional. […] Hoje nós temos estaleiros prontos, mão de obra qualificada, nós conseguimos alcançar excelentes níveis de aprendizagem, temos equipamentos de última geração nos estaleiros para garantir produção competitiva e eficiente”, argumentou o prefeito.

Ainda, o prefeito disse que o cenário que está se desenhando não deixará alternativas para os municípios que se prepararam, que investiram, que construíram escolas, ampliaram a rede de saúde, que melhoraram a infraestrutura, que trabalharam com arrecadação diferenciada, que valorizaram seus servidores, e que fortaleceram o serviço publico. De acordo com ele, só neste ano, Rio Grande perdeu cerca de R$ 50 milhões em arrecadação de ICMS e que o Estado perdeu três vezes mais. “Nós vamos fazer essa mobilização, eu quero ouvir o governador Sartori dizer que R$ 6 bilhões de investimentos que foram feitos aqui não é importante para o Estado. 30% do Petróleo do Brasil é extraído por plataformas construídas em Rio Grande. Nós vamos brigar muito, porque se nós não tivermos mobilização forte aqui, vamos voltar a ser uma cidade só de importação e exportação, vamos voltar a ser um corredor com baixo valor agregado”, finalizou Lindenmeyer.

CDL
“Esse anúncio nada mais é do que a efetivação daquilo que nós já imaginávamos”, disse o presidente da CDL do Rio Grande, Luiz Carlos Zanetti, levando em conta os desdobramentos da operação Lava Jato e a situação da Petrobras. Afirmou que a classe apoiou e continuará apoiando as lutas pela continuidade do Polo Naval. Afirmou que vários comerciantes investiram pensando no Polo Naval e no que isso representava economicamente para a cidade.

Zanetti disse que, no momento, os comerciantes estão se reestruturando para preservar os empregos. Contou que quem possui uma ou duas filiais está fechando uma loja para preservar os empregos nas outras, porque, segundo ele, ainda existe uma expectativa, conforme os índices econômicos, de uma retomada da economia no segundo semestre. Ele concorda que a crise contribuiu para o fechamento de inúmeras lojas na cidade, mas garantiu que as falácias sobre um possível fechamento do shopping Partage não passam de boatos.

O lojista argumentou que, apesar de toda a sua importância, Rio Grande não é somente um Polo naval, e disse que o momento agora é de focar em outras potencialidades como nas APLs locais, nos altos investimentos da Yara Brasil, na supersafra de grãos, no Porto, na Furg, na Marinha e na termelétrica, que ainda está com projeto direcionado para acontecer em Rio Grande

FEDERASUL
O vice-presidente regional da Federasul, Renato Lima, também disse que o anúncio da Petrobras não chega a ser uma surpresa. “Sabíamos das dificuldades geradas pelos desvios, a empresa foi devastada pela roubalheira e não tem como investir”, afirmou. Lembrou que o diretor da Ecovix em Rio Grande foi um dos primeiros a ser preso entre os acusados na Lava Jato. Alegou que como havia muitos investimentos em Rio Grande, parece que sentimos mais as perdas do que o resto do País, tudo isso somado à crise econômica gerou um cenário de crise muito grande.

Entretanto, Lima disse que o momento é de trabalhar, sem partidarização, em defesa do polo naval e pela retomada da economia. “Nós não podemos nos sentir derrotados. Nós temos que perceber que Rio Grande tem vocação logística forte e industrial. A Petrobras era nosso grande cliente, mas a cidade tem que continuar trabalhando, lutando para conseguir retomar o Polo Naval e acreditando que temos potencial para ir em frente”, opinou.

Afirmou que o momento é de enfrentar a crise e tentar buscar também outros investimentos, de valorizar a termelétrica, o distrito industrial, a indústria de grãos, o Porto e o Superporto que está trabalhando com recorde de safra, as empresas e o comércio.

Lima alegou ainda que o Brasil vinha de um momento de desenvolvimento, mas que a euforia acabou antes do esperado e a economia caiu para um PIB negativo de mais de 3,5% no ano passado. Para este ano, informou que a expectativa é ficar em – 1%. “Apesar de tudo, vamos ter uma melhora, a expectativa do varejo é de aumentar em 6% as vendas”, disse.

CÂMARA DE COMÉRCIO
O presidente da Câmara de Comércio, Torquato Pontes, disse que lamenta o fato que gerou grande prejuízo para a comunidade, que o recuo nos investimentos na indústria naval atinge o comércio, o empresariado e mais ainda os desempregados. Disse que conversou com o prefeito e que também apoia a luta pela retomada do polo naval.

Sobre os reflexos, disse que a cidade já está sentindo há bastante tempo, o comércio, o setor de hotelaria, todos estão prejudicados. Disse que houve uma redução bastante drástica com o fechamento de várias lojas. Lembrou que a atividade do polo naval atingiu um papel de protagonismo, que Rio Grande chegou a desenvolver APL voltada para essa atividade com visão de longo prazo, porque se tratava de um projeto para 20 anos, mas que foi interrompido. E finalizou dizendo que precisamos continuar trabalhando para contornar a situação, e que a mobilização política tem que continuar.